Sábado, 7 de Março de 2009

Vou dar início a 24 anos de nada I

Estávamos no primeiro quartilho de mil novecentos e cincoenta e dois. E aí estavam o Alvaro, e seu oitavo filho, caminhando a pé ainda altas horas da madrugada, rumo á estação dos caminhos de ferro portuguezes, onde seu oitavo filho iria embarcar, já com uma rolhada de certidões, requerimentos e quejandos. Ia-os entregar no Ministério do Ultramar. Entidade que, superintendia na recolonizaçao da colónia de Angola. Iria dar início ao processo que o levaria áquela que ao tempo ainda só acolhia práticamente bandoleiros, foragidos, ainda funcionava camufladamente como colónia penal. A distancia, ainda supria á volta de cinco quilómetros. A meio do precurso,lá estavam estes dois tristes, acachados junto ao tronco de um pinheiro resguardando-se da forte chuvada que caía. Era uma cena patetica! Chegados á estação o Alvaro dava-me conselhos, pois no futuro, sempre que, fosse necessário  fazer esta viagem, iria fazê-la sósinho. Ouvia tudo com atenção. Em Lisboa esperar-me-ia um cunhado, saido recentemente da marinha de guerra portugueza, onde em Timor servira a bordo do navio patrulha João Belo, e actualmente preste a embarcar para o Brasil com uma irmã minha com quem casara.e onde, pensavam constituir família. Era ele que ia  comigo dar as voltas necessárias, para eu ficar a saber todos os meandros que teria de percorrer no futuro próximo. A Enchell a vapor dava entrada na estação. Eram os modelos, de locomotivas utilizadas nos percursos longos e eram aquelas, com as quais mantinha uma paixão que, me transpunha para a minha infancia. Num assomo á janela, tive tempo de dizer adeus ao Álvaro e já com um rouco som, tão seu caracteristico e um violento sopro seguido de mais dois ou três, o combóio correio, pôs-se em movimento. Foi ela que me transportou pelos caminhos por mim desconhecidos até então. E que, me alargaria os meus horizontes, até ali, tancanhos e circunscritos ao perfil da serra de aire. A paisagem me era familiar até S Martinho do Porto. Pela primeira vez a fazia sem a ventoinha de madeira rodopiando com a força do vento. Era a idade adulta chegando, apagando de vez todas as fantazias edílicas da infancia. Depois de S. Martinho um mundo novo se me abriu, a paragem do combóio em cada estação me abria os olhos de curiosidade. Ele eram as cavacas das Caldas mais além os pastéis de feijão e o movimento desusado das estações á chegada do comboio era febril, ardinas,vendedores de recordações da zona etc. O combóio era o polo de desenvolvimento, como o o fora no século dezassete na grande revolução industrial, e tal como outrora era por excelência o transporte de mercadorias, de pessoas, e de correio. Nesta viagem o que mais me fascinou foi a entrada no rúnel do Rossio, e á saída a fenomenal estação que se lhe seguiu. Fiquei embasbacado! Linda de morrer, a profusão de pessoas era tal que, para nos desatrabancarmos do local, nos entrechocavamos umas com as outras. O meu cunhado que por ali andava algures, não levou muito tempo até termos contacto visual um com o outro. Ali mesmo ele me conferiu os papéis que eu levava, e de imediato transpusemos a gare da estação, e nos vimos no exterior da mesma. Era tudo novo para mim! Era um parolo, e devia de chamar a atenção? Meu cunhado me ia explicando por onde passávamos. Neste momento levou-me a comer qualquer coisa, ele sabia bem que, fartura, não era o nosso forte. Subimos a rua, minto aquilo era uma avenida e bem larga, com árvores frondosas em profusão dum lado e do outro chegámos a um local que fazia esquina, aí existia um cafée que tinha o nome da própria cidade, Pomposamente escrito em cima, lia-se: Café Lisboa, uma impressão muito forte me ficou desse momento. Era o cheirinho a café que na rua era perceptível, era um odor que, se sobrepunha àquele que, enrompia da floração que brotava naquela primavera de mil novecentos e cicoenta e dois. O ar recendia á baga mágica. Depois de saciados e já no exterior, fizemos o trajecto inverso, descendo a rua que, há pouco subiramos. Passámos por uma grande praça. Para ela, confluíam várias artérias, e foi por uma dessas artérias que, continuámos na nossa caminhada descendente, via-se ao fundo, um enorme arco igualzinho áqueles por onde os exercitos romenos vencedores passavam e onde nós, pobres anónimos passávamos neste momento tambem. Dei de caras com uma enorme praça muito maior que aquela que passara á momentos. Meu cunhado informara-me que era ali que pulsava o centro nevrálgico de Portugal. Ao centro, uma estátua onde um cavaleiro altaneiro sobressaía, olhava para o rio Tejo que, á sua frente corria, guarneciam a praça mais três lados todos com edificios muito identicos, e todos eles guarnecidos por arcadas. Meu cunhado informou.me que era ali que se encontravam todos os ministérios do governo de Portugal. Entrámos na praça flectindo para a direita e entrámos na ala desse lado, corremos todo o alpendre os ministérios sucediam-se e ao fundo, lá estava inscrito nas vidraças da porta e em forma de arco; Ministério do Ultramar. Entrámos no edifício e informação atrás de informação, lá chegámos ao gabinete que superintendia nestes assuntos do repovoamento das colónias. Logo que fomos atendidos, apresentámos a candidatura, na figura de um requerimento, e a ele apenso, todos os outros documentos  pedidos no corpo do  decreto que criara o maleficio. E pronto; feito isto, logo fomos informados da formalização da candidatura, e que teríamos que aguardar pelo deferimento, ou não da mesma. Por agora mais nada tínhamos a fazer por ali, e. pelo adiantado da hora, meu cunhado levou-me a pernoitar aquela noite, na casa de um tio que morava em Canpo de Ourique ou Campolide, a única coisa que me lembro, é que no morro sobranceiro se via ao fundo a Estaçao de Campolide e por ali fiquei naquela noite . Só fiz merda! Esse familiar de meu cunhado já devia ter um nível de vida rasoável dado o estilo da casa, para mim luxuosa. Cortinas do tipo viscose, ou organdim, no chão; grandes carpetes com estampas muito lindas, os móveis cristaleiras, ultrapassavam as singelas cantareiras que, mobilavam a minha pobre casa. Senti-me mal naquela casa! Pois atemorizava-me partir por descuido qualquer coisa. Ao jantar foi-me servido carne com arroz e batatas fritas. nunca tinha comido batatas fritas na minha vida. Mas o pior foi ver ao lado do prato um garfo e uma faca nunca tinha comida com semelhate instrumental, fiquei-me a olhar de lado como faziam! Agarravam a faca com a mão direita,e o garfo com a mão esquerda tudo ao contrário daquilo a que estava habituado. Resultado á primeira tentativa aquilo que para eles era feito com suplesse para mim foi feito num estado de arrepiamento assim o garfo fez força para um lado a faca fez para o outro o efeito foi desastroso batatas e arroz se espalharam por uma grande área das carpetes e chão não me enterrei no chão mas fiquei embassado e o calor subiu-me á face. O que vale é que a permanencia era breve. Há noite quando me vi sósinho na cama a olhar para o tecto, rejubilei pois ali voltava a ser eu mesmo. Apesar dos azares do dia, esta noite fiz uma descoberta de algo que, me tem intrigado há muito tempo. Alguma vez te ocorreu saber, como chegaram até aos nossos dias, aqueles famosos quadros imprecionistas, realistas, futuristas etc. Não! Então escuta, pois só te vou contar uma vez.. Hoje calhou-me desovar,numa casa de banho que considero luxuosa, No chão exibia mosaicos com manchas, riscos e arabescos, e os móveis de pinho impecavelmente aparados dixavam ver aquelas manchas em curvas de nivel . Era aí que residia o mistério. 

Não sei porque, mas estava com uma ligeira prisão de ventre. Atribuíra-a á mudança de hábitos e á viagem que fizera para aqui chegar. Durante a noite, deu-me vontade de ir á casa de banho, ao chegar á mesma e descontraidamente, deparou-se-me uma casa de banho luxuosa, pelo menos para o conceito que eu tinha do luxo. O chão era de mosaicos com muitos risquinhos, manchinhas e coisas assim, junto ao lavatório um móvel de pinho impecavelmente aparado exibia umas manchas em curvas de nível muito sugestivas. Agora aprecia, o que me aconteceu! Sentei-me na sanita para desovar, faço força e nada, volto a insistir e nada, comecei a ficar preocupado, tomei alento, com os cotovelos firmemente apoiados sobre os joelhos e as palmas das mãos segurando os parietais, insisti pela terceira vez: comecei a exercer mentalmente pressão sobre o ventre, as jugulares tumefactas, a face fortemente ruberada,os olhos, querendo saltar das orbitas fixavam agora os tais arabesco e risquinhos dos mosaicos, com os neuróneos altamente motivados pela forte oxigenação; foi neste momento que, se me depararam imagens fantasmagóricas oriundas das ditas, posso-te assegurar que, á medida que o intestino com dificuldade se ia esvasiando, vi alces emergindo das brumas e das manchas no móvel de pinho, morcegos gigantescos, de boca aberta cheia de baba. Nesta visão, ainda tive tempo de num deles lhe de marcar com uma esferográfica os olhinhos no local em que os via. Na manhã seguinte os pontinhos da esferográfica ainda lá estavam mas dos olhos do morcego nada era visível. Só se revelam naquele momento crucial. Agora vê-me aquelas obras de arte da cultura, cujos nomes são antecedidos de brasonados sempre atarefados entre briefings, chás canastras, pores-do-sol, recepções, jantares de gala etc. Etc. Estás a ver as fenomenais prisões de ventre de que devem ser acometidos periodicamente, aquilo a que se chama estar entupido. Faço ideia das visões de que são cúmplices, e como as sabem tornar imorredoiras fixando-as na tela para a posteridade da arte eterna. Aquela figura do Picasso; uma cabeça de perfil, com um olho ao viés, no momento da fixação da mesma o homem só podia estar de diarreia. 
Acordei bem-disposto! Na casa de banho onde ultimava a higiene pessoal, ainda tive o cuidado de voltar a olhar para o móvel de pinho, mas de facto das figuras fantasmagóricas que na véspera vira estampadas nos mosaicos e no móvel já nada era visível. Com esta última observação, mais se me adensou a ideia que, as mesmas só são visíveis com prisões de ventre, e mais fantasmagóricas serão quanto mais entupido estiveres, experimenta! Mas desde já te aviso que, esses entupimentos só são possíveis nas pessoas de fartos recursos,ricos, fidalgos, nos de sangue azul visto, andarem sempre bem nutridos, dado, os eventos sociais, a que são obrigados. Ia regressar á terrinha donde estava sendo expulso, terra onde me criara, e onde ia deixar dentro em breve, as alegrias da infância. Ia haver um compasso de espera entre a minha chegada á terrinha, e a minha possível partida para o desconhecido. Entretanto, iniciei de imediato a minha actividade, por acaso bem rendosa, pena era serem trabalhos temporários. Meu pai me dera este dinheiro para eu administrar logo que decidira pôr-me do outro lado do mundo. Comprara com ele, todos os artigos para levar principalmente, roupa e acima de tudo, roupa para os trópicos. Nunca me vestira com aquele estilo tipo Rudolfo Valentino, tão vulgar naquela época chamavam-lhes os pipis, camisa de manga curta, com uma dobra feita por nós próprios, colarinho levantado atrás sobre o cabelo e bastante brilhantina escorrendo do mesmo, era este o estilo. Foi assim que eu pisei pela primeira vez terra angolana. Mesmo assim, os naturais logo detectavam um recem chegado do puto, a alcunha que eles nos punham era:  gueta ou morendengo, também com a palidez da pele que exibias, alva como uma donzela como querias tu que te definissem. A carta do ministério não levou muito a chegar, e dizia; textual e expressamente. O embarque estava marcado para doze de Julho de mil novecentos e cinquenta e dois, estávamos em fins de Maio. Dizia a missiva que, me havia de apresentar dois dias antes afim de ser presente a um departamento sobre doenças tropicais. Ficava este departamento á Junqueira. Quando de lá saí, saí imunizado contra as principais doenças tropicais conhecidas há época. Muitos anos depois, das que por lá conheci, nem me atrevo a nomeá-las dado a quantidade mais que surpreendente, fintá-las foi em si uma epopeia. Este tempo se escoou rapidamente, quando dei por mim já estava a caminho de Lisboa para o derradeiro encontro com a capital do meu pais. O Álvaro me acompanhou, e ainda hoje retenho em mim os conselhos que me deu e o derradeiro aceno de mão com os olhos lacrimejados. Nunca mais o vi! Por isso retenho essa imagem patética, cinquenta e sete anos depois. Hoje vejo a inutilidade dessa viagem e de tal permanência. Pensei muita vez que na altura que subia para o barco, e lá em cima, na zona a que chamavam o portaló se tivesse caído partido as pernas ou algo do género, isso me impossibilitaria de embarcar e talvez se tivesse quebrado para sempre essa sequência e a minha vida hoje seria outra e garanto que seria melhor. De toda a família, minha avó Maria Rosa foi a única que me deu um conselho realista e verdadeiro. Óh filho “era assim que me tratava” que vais tu fazer para essa terra então não vez que, estando lá a bandeira portuguesa a merda é a mesma do que aqui em Portugal. Suspeito que ela tenha dito isto despeitada por ir ficar sem o quarto elemento para o habitual jogo de sueca que ela tanto gostava. Muito lhe tinha custado angariar esse quarto elemento, O compadre Loureiro e a comadre Eugénia estavam seguros porque eram seus vizinhos, mas o seu neto dado os temores que tinha para percorrer o percurso de regresso a casa altas horas da noite por medos recalcados e depois aquele moinho de vento não facilitava as coisas pelas lendas que o envolviam de almas penadas que por ali gemiam durante a noite. Hoje sei que as cabaças que guarneciam os varais e o som que emitiam, cujo único fim era avisar o moleiro de que, o moinho rodava e cujo som, gemebundo quando parado impressionava, fazendo lembrar o gemido de uma alma penada. O breu da noite, a falta de luz eléctrica, a própria igreja difusamente alimentava esses medos.

O vapor Cuanza, Era este o nome do navio que me iria fazer transpor o oceano Atlântico. Ali quedo no cais da Rocha Conde Óbidos, Parece-me, que era este o nome da Doca. Parecia-me a figura dos velhos Caíques antecedentes dos grandes arrastões. Despedi-me do Álvaro e de mais familiares que lá estavam sublinho o meu cunhado Pinheiro. Feito isto avancei como se avança para o toiro que se vai agarrar a unha. E entrei por ali dentro, e encostei-me á amurada apreciando agora inversamente a multidão no cais Estava nesta fase de despedidas quando o desgraçado deu um ronco que senti um arrepio pela espinha acima. De imediato comecei a sentir uma vibração que indiciava que o motor estava em movimento. Não me enganei pois apercebi-me que o barco se estava a afastar da amurada. Os gestos de despedida se intensificaram. E foram deixando á medida que o barco se afastava um sentimento de abandono. Estava, a partir de agora entregue a mim mesmo, é curioso mas o sentimento tocava as raias do sublime! Talvez como um dia, quando a morte me assomar á cancela. Aí, estarei novamente, só comigo mesmo. Aquela torre que estava na embocadura do rio que de nítida, lentamente se foi esfumando, ficando agora para trás há muito. A sensação com que fiquei horas depois é que, tinha saído por um funil pela parte mais estreita onde tudo era pequenino, para sair pela mais larga onde tudo se abria numa visão panorâmica, para onde quer que olhasse só via água e céu. Neste momento foram-nos distribuídos os alojamentos, pois a noite se aproximava! Mas que decepção, meu Deus, eram praticamente no porão e as camas: umas simples tarimbas! O bilhete bem dizia terceira suplementar. Durou quinze dias esta vivência. Alguns amigos momentâneos arranjei, vi isso quando aportamos a Las-Palmas três dias depois visitamos uma série de capelinhas. Com muitas meninas, bem bonitas por sinal, quando regressamos ao barco já vínhamos com um forte grão na asa e bem cantantes, eram nortenhos o maior número de nós. Um deles cantava alegremente uma canção de que me ficaram na mente uns pormenores muito ténues. A letra rezava assim: eu quero-te fu, eu quero-te fu, eu quero-te forçosamente, tu és uma pu, tu és uma pu, tu és uma pura donzela, e assim sucessivamente, foi a canção mais cantada durante toda a viagem. O mar dali para a frente se modificou. Muito sereno, parecia chumbo derretido. Peixes voadores saltavam e voavam longas distâncias á frente do navio. E as doninhas, nadavam mesmo junto da proa do navio como se o desafiassem a apanhá-las. Era um quadro bem bonito a costa africana ao longe sempre visível, o comandante do navio ia afixando num gráfico uns pinos que assinalavam os locais que o navio ia vencendo; Madeira, Las-Palmas, Dakar etc. Hoje apôs um pino! Ao lado, a designação: Fortaleza de São João Batista de Ajudá indagando fiquei a saber que, foi um dos principais nós do tráfico de escravos e a primeira feitoria construída fora do território de Portugal para eles de má sina, para nós o início de uma epopeia que se estendeu pelos tempos. Navegando sempre para sul, passámos ao lado da ilha de Fernando Pó. Houve um diálogo, entre marinheiros e pessoas na ilha. Talvez fosse um ponto de honra da navegação às pessoas da ilha, indagar de calamidades e outras tragédias. Já lá iam onze dias. O sol ia aquecendo! Aproximávamo-nos do equador, o ponto onde a Terra se divide em dois hemisférios. O sol, estava agora, no hemisfério norte posicionado no trópico de Câncer. No dia seguinte, aportámos em Ponta Negra. E saímos para o exterior. Foi o primeiro contacto que tive com o solo ocre de África, e com as gentes aí viventes. Foi também onde apanhei a primeira barrigada de bananas nunca tinham comido tal fruto, mas era muito saboroso e devia de ser muito nutritivo em Portugal vi-o muitas vezes nas mãos dos bem nutridos. O navio carregava madeira! Meu Deus era cada toro, quáse um metro de diâmetro. Horas depois zarpámos para sul, passámos por Cabinda  a seguir pela foz do rio Congo, a partir daqui acompanhámos a costa angolana  visível á nossa esquerda  até á cidade S.Paulo da Assunção de Luanda. Onde cheguei no dia vinte e seis de Julho de mil novecentos e cincoenta e dois. Aparecia-me ao longe alojada no sopé dum planalto que, descia por um imenso barrocal de côr ôcre, até ao Porto marítimo lá em baixo. Na vivência que mantive com a cidade durante duas décadas e meia, verifiquei que, a partir daquele ponto, para onde quer que fosses em Luanda era sempre a subir, por isso tirando a parte baixa da cidade toda ela assentava num ligeiro planalto. Ia ter tempo de a conhecer bem! Pois a partir daquele dia passei a calcurreá-la a pé para cima e para baixo. Comecei muito mal pois o emprego que arranjei pagavam só cincoenta escudos por dia e só os dias que trabalhavas, o que dava cerca de:mil escudos por mês, pagava setecentos e cincoenta do comes e dormes era isso o essencial do ser humano. e o resto das necessidades? Um futuro promissor, não hajam dúvidas. Chamarem-me explorador e ladrão vinte e quatro anos depois, foi uma heresia só digna de atrasados mentais. Este emprego, ficava na baixa de Luanda. E comercializava peças auto,  era dum americano o Mac Gowen representante em Angola da Chevrolet, Pontiac, Cadilaac e os camiões Fargo, tractores All Chalmers etc. ficava a mesma ao lado da tabaqueira Sital e em frente ao cine Nacional. Tinha o nome do Pais de origem do dono Casa Americana. Tinha que fazer a pé, mais o meu sétimo irmão, o percurso de cinco quilómetros quatro vezes por dia. Deparou-se-me uma cidade praticamente toda ela em terra batida, até mesmo uma avenida muito bonita que saía do porto marítimo e que contornava toda a baía. O ôcre era o tom que mais chamava a atenção, mesmo por toda a Angola por onde andei milhares de quilómetros era este o tom dominante. O meu sétimo irmão que já por ali andava havia dois anos, rápidamente me integrou dentro da sua roda de amigos. Ele eram os irmãos Penas, o Reis de Sá o Simões, o Albano o Linares este e os irmãos Penas nutriam uma aficion por touros e touradas talvez pela origem em Portugal ser o Ribatejo mas aquele com quem eu me ia dar melhor, e que vou nomear agora era o Walter Tarira. Isto sómente pelo o gosto que ambos nutriamos pelos sons harmoniosos dos acordes de Violão, foi com ele que aprendi os primeiros  acordes e foi com ele que faziamos que tocávamos na tasca do tio Joaquim ao Bungo no bairro dos pescadores mesmo a seguir à passagem de nível. Os sons ecoavam pela noite dentro e qualquer cliente com os copos cantava o fado, e que fervor que eles punham no feito. cumpria mais o meu amigo Walter uma missão social. Mais tarde outros amigos se foram criando, O Araújo, chefe da composição das chapas de impressão do jornal Diário de Luanda, vespertino. Para que me não esqueça não quero deixar de nomear o meu grande amigo Peralta cuja voz não ficava atrás dos grandes tenores conhecidos a partir de agora estava formado um núcleo de amigos bem fixes, e passou a ser hábito os encontros depois do trabalho ora no café O Gelo, ora na Biker ou Portugália, comecei a sentir-me á vontade. Converssava-se de tudo, e era ali que se planeava tudo o que faziamos. Passou esta a ser a minha rotina, que só era quebrada quando ia ´as putas, ao cinema ver uma cwoyada, ou para o Bungo para a tasca do tijaquim para os fados com o Tarira. um dia juntou-se a nós um tal Camarinha recem chegado do Puto aquilo é que era tocar guitarra portuguesa, como nós aprendemos com ele! Diziam até com ar entupido pela admiração que era profissional no Puto. de vez em quando até gajas lá apareciam para cantar. Foi um tempo de boémia que durou até eu ir para a tropa. muitas vezes saíamos dali e íamos para S.Paulo ás galdérias. Tenho aqui a dizer que muitas vezes me calhava cada estafermo, autenticos tortulhos mas olha naquela idade leva-se tudo á frente  tudo tipo rajada. um dia arranjei um preta assim a modos que minha namorada, era só love nem pagava nada! Foi minha companheira sexual até ir para a tropa, dormia lá no musseque com ela muitas vezes. Ela é que me chamava para ir para o trabalho que ficava lá em baixo.

   Com estas amizades e as tertúlias a que davam azo, o tempo se foi passando muito bem. Já caminhava para dois anos de permanência na terra, um dia me aconteceu um percalço que, mudou para sempre o meu estado de espírito. Habituara-me a beber um cafezito á noite depois do jantar. Fazia-o sempre no café do Carvalho que, ficava na rua conde de Ficalho ou de Noronha, a toponímica de Luanda, já se vai diluindo pelo tempo passado mas o que interessa, é que, o mesmo ficava praticamente em frente á Liga Nacional Africana. Naquela noite bebi-o como sempre fazia, mas o resultado altas horas da noite foi devastador. Acordei totalmente suado suor esse que, escorria por todo o corpo. O mau estar era total mas, o sintoma mais pertinente eram as pulsações, o coração batia de cento e oitenta a duzentas por minuto, mas o pior foram  os tempos que se seguiram que sem aviso prévio começava a bater desordenadamente pelo que começou a concentrar as minhas atenções nesse facto com a idade que eu tinha começou a estragar-me qualquer evento ou festa onde estivesse e começou a condicionar a minha vida. A sensação era a de morte eminente. Ia enlouquecendo! Tivesse o ser humano o dom de antever o futuro e tudo seria diferente, pois aqui estou com setenta três anos, sem que o problema que acarreto desde a juventude me tivesse suprimido a vida. Mas é esta a incógnita que os atemoriza. A minha vida com esta malta era um torvelinho diário meu amigo Peralta vivia com uma mulher e gostava dela fortemente, já tinha um menino ou, menina e por isso ao tempo existia em Luanda uma associação de caridade muito ligada á igreja chamada  as Vicentinas, prestavam elas ajuda a famílias carenciadas e o Peralta tenho pena am dize-lo vivia como todos nós no limiar da sobrevivência ele como disse mais, mas muito mais mesmo por ter uma família constituida. Tinha ele pois uma epécie de gratidão para com essa associação. Era costume naquele tempo as Vicentinas fazerem  uma feira de diversão para angariação de fundos, era a mesma realizada junto á igreja de S.Paulo num quintalão grande propriedade da própria igreja. Mais ou menos neste ponto entro eu de serviço. Como disse atrás o Peralta tinha uma dívida de gratidão para com essa associação; como tinha uma vóz de tenor bem timbrada e forte foi convidado para canter nessa feira, caía lá Luanda inteira, para ele, era como se fosse o Scala de Milão, havia um senão, e nada de despresar. E o acompanhamento!  Dizia ele, mas não encontrava resposta para a pergunta que a si mesmo fazia. Mas o Peralta tranquilizou-s

publicado por A Conspiração às 17:56
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