Sábado, 24 de Fevereiro de 2007

aos coices e marradas cheguei a esta terra "1"

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Vista de uma perspectiva exterior a ela mesma, a cena parecia, ou dir-se-ia ser mesmo, um ritual de magia negra, ou de bruxaria. Mas não! A cena era bem viva, verdadeira, e real. Era a cena do quotidiano, de uma vulgar família portuguesa da década de quarenta. Passava-se a mesma, em volta de uma mesa. A mesa era rectangular, tinha talvez uns dois metros e meio de comprimento, por um e vinte de largura. Era pois uma mesa de medidas já um pouco invulgares. Parece que, fora feita para a cena que vou narrar, que me marcou e talvez aos outros intervenientes, por se repetir dias e dias sem conto. De volta dela, agrupavam-se treze pessoas; tantas quanto os membros da família Soares. Num dos topos, o meu pai no topo oposto minha mãe, num dos lados as minhas seis irmãs, no lado oposto os cinco irmãos. Parecia a cena tal como na última ceia de Cristo, e como ela composta de treze membros. O silêncio cortava-se à faca! Meu pai sem vacilar e em tom grave dizia? Rapazes! Ele, quando se dirigia a todos os filhos, independentemente de serem rapazes ou raparigas tratava-os a todos por rapazes. Vamos pois agradecer a Deus a davida que é a refeição que temos à nossa frente. Do lado oposto, minha mãe corroborava e nós repetíamos palavra por palavra o que ela dizia. O silêncio era mortal. Bem dito sejas tu! Em seu louvor; e persignava-se, nós imitávamos cada gesto, fazia uma cruzinha na testa com o polegar e dizia: Senhor eu não sou digno, fazia outra cruzinha na boca e continuava que entreis na minha morada, outra cruzinha no peito e continuava, mas dizei uma só palavra e minha alma será salva. Era assim e o ritual se repetia todos os dias. A fome grassava em Portugal,e por toda a Europa.

 

A crise de meus tempos

 

 





 




Aquela mesa ali estava, com treze pratos, ao centro concentrando as atenções de todos erguia-se uma panela com capacidade para cerca de dez a quinze litros. Estava a dita, bem cheia e pronta para a distribuição que, minha mãe meticulosamente e igualitariamente fazia! O conteúdo, era aquilo a que já estávamos habituados de longa data: farinha de milho, cozida com couves cortada em tiras fininhas, sal e para dar gosto, banha de porco com fartura, a meio obrigavam-nos a tomar uma colher de óleo de fígado de bacalhau puro. Aquele centro, irradiava pois, uma força, simbolizada por treze raios, cada um apontando um membro daquela família, era como se todos os pontos do rectângulo, se afastassem de forma equidistante do centro, e apontassem um destino para cada um deles, o povo chama-lhe o fado, ou fadário. Eras um homem muito valoroso. Ainda novo, deixaste a tua aldeia de Nespereira, e vieste de norte para sul, sempre de mina em mina, procurando o melhor para ti naquela época bronca. Aportaste às minas da Bezerra no Concelho de Porto de Mós, e por lá assentaste acantonamento durante uns tempos. Contavas-nos histórias bem interessantes, daquela altura

  • Este mural que descreve as actividades da zona ao longo dos tempos encontra-se em frente à igreja matriz de Serro Ventoso



Agora, que a distancia do tempo insondável, se interpôs irremediavelmente entre mim e a tua memoria, vejo o quanto fostes valoroso. Viestes para estas paragens descendo de norte para sul e de mina em mina, e às sortes, chegaste às minas da Bezerra, era ali das entranhas da terra que extraias a matéria prima energética que alimentava as industrias emergentes na região. O carvão é um elemento abundante no maciço calcário da Serra de Aire e Candeeiros. O local impõe respeito, pela maneira como a mãe natureza moldou e plasmou a matéria ao longo de milhões de anos. Devia de ser uma zona batida por lobos, linces e outros animais.Mas ao


Zona do Serro Ventoso na estrada de Porto de Mós para Santarem

  • Bezerra!  Onde o Álvaro qual toupeira de lá retirava o carvão




  • Outra vista da zona





  • O fraguedo desta magnitude sempre me impressionou. E para os estudiosos, aqui bem perto na estrada de Fátima para Alvega, durante todo o percurso da descida é notório o deslizamento das placas rochosas entre si.Essa placa a que me refiro ei-la



Alvaro passados que são oitenta e sete anos desde que por aqui andaste em 1919, por força do aguilhão que me espicassava , resolvi ir visitar a tua mina. Afoitamente entrei sòsinho por lá adentro, sentia que o chão que pisava naquele momento o pisaras tu outrora, Milhares de borboletas brancas e pequenas me fizeram a primeira recepção, em miríades antecediam-me. Parecia uma visão do paraiso! Bem mais para o seu interior uma espècie de bochechar era audível, a princípio pareceu-me o murmúrio dos mineiros que no seu interior falavam outras vezes parecia-me o chiar das vagonas que cheias de carvão por ali deslizavam, para o exterior.Vi depois, que eram morcegos grandes que, pendurados nas cavidades o emitiam nas paredes da galeria, milhares de melgas gigantes ali pousavam e grandes aranhões passeavam-se por ali entre elas.Fui-me emocionando à medida que avançava e bem por ali dentro. Murmurei em voz baixa? Óh Alvaro, foste um mineiro incansável. Acto contínuo senti um frio interno cortante e como se o coração se tivesse privado de oxigénio fui andando de vagar,até à saída que se visionava ainda longe a aflição foi aumentando e eu ia murmurando hossanas como se sentisse que me extinguiria antes de chegar à saída, mesmo assim gostei muito de visitar a tua mina. E assim foi três semanas depois cá voltei. Os sintomas claustrofobicos que senti, estava escrito que assim seria desde o tempo anterior!


 

Eis um dos morcegos que me acompanhou até à saída


 

As estalactites em formação

quàse cem anos depois,escassos centímetro e meio


 

A boca da galeria principal tem mais três entradas, para quem está do lado de fora


 

Mais um efeito rochoso no seu interior


Outra reentrancia paraiso dos morcegos


 

Antracite por mim retirado da Tua mina Alvaro

 

Umas pedras muito bonitas que de lá tirei tambem. Talvez Alvaro na próxima reencarnação já se tenham transformado em diamantes.  Pois como se sabe o diamante é o carbono Puro.

mesmo tempo é linda, pela grandiosidade de seus contrafortes, e escarpas, a queda a pique a partir do miradouro da Bezerra é deslumbrante, e do sopé corre plana até à vila de Porto de Mós ao longe.

Eras mineiro perfurador e os explosivos para ti não tinham segredo! A dinamite, as cápsulas, os detonadores, rastilhos etc. eram por ti manobrados com toda a facilidade e mestria. As histórias que nos contavas aos serões de volta daquela mesa, eram bem interessantes.

Um dia puseste-te a magicar que havias de arranjar uma namorada. Se melhor o pensaste melhor lhe deste execução, no sábado seguinte lá foste tu a um arraial que havia lá para os lados de S. Bento, e que no verão em Portugal são frequentes. Dali até lá seriam légua e meia talvez,e o caminho para lá chegar serpenteava sempre pelo cume do massiço calcário, tinha que caminhar muitas vezes contornando os muros que dividiam as courelas entre si e que tinham cerca de um metro de altura por cerca de trinta cm de largura toda a serra era bordada carinhosamente como uma rede que a guarnecia perpetuando as propriedades como que, a dizer aqui é meu, aí é teu. Estas construções devem-se ao facto de as aflorações rochosas serem de tal ordem que a rocha aflora a superficie e dadas as enormes pressões a que está sujeita a fazem elevar é só apanhar e construir a mãe natureza tudo dá e na altura própria tudo leva. Não tivestes medo de andar a pé e de noite sozinho por aquelas serranias e fraguedos? Os amores inibem os medos eu sei! Mas os petardos que transportavas sempre contigo no alforge ainda os inibiam mais. Parece que ainda te estou a ouvir. Contavas que uma coruja branca te acompanhou todo o caminho, As corujas são aves nocturnas, muito ligadas aos bruxedos, e superstições assim como os mochos membro da mesma família, mas, muito mais bonitas, com sua plumagem branca,creme e raiada com laivos de outras cores muito bonitas. Fazem lembrar uma noiva no seu dia; de noite, quando pousadas num galho, à beira dos caminhos, à passagem por ela de qualquer viandante, têm por habito esvoaçar para o galho seguinte com aquele som arrepiante gluglu glugluglu e rente ao chão vão pousar no galho seguinte, e assim sucessivamente, acompanhou-te durante aquela légua e meia, era de causar calafrios! Ou seria, a namorada que procuravas que veio ao teu encontro em forma de coruja? Quando já de madrugada regressavas e pelos jeitos já alegre com os copitos, davas pela presença dos lobos que ao longe te acompanhavam uivando uns para os outros. Não sabiam eles que os seus olhos refulgiam na noite escura denunciando-os com precisão. E tu sempre em respeito não te fossem eles surpreender pela frente, acompanhavas-lhe os movimentos, eis senão quando tomado de temores ocultos sacavas do teu alforge, um daqueles artefactos explosivos de que tu eras bom confeccionador, e com quais andavas sempre munido. A mecha era acendida cuidadosamente, e era calculada para um tempo de retardo previamente estudado, e de repente impulsionada por mão forte, ia cair vinte ou trinta metros à frente, acaçapavas-te; quando aquela merda explodia, era como se a morte em forma de ceifeira varresse toda a zona como que procurando perigos que só na cabeça dos viandantes existiam. O lampejo da deflagração gelava o sangue, do mais timorato e, era acto contínuo seguido de forte estampido, que ficava longo período de tempo como que, suspenso em ecos sucessivos ao longo das escarpas e seus contrafortes, o silvo provocado pelos pregos e bocados de ferro chispando em todas as direcções era aterrador mas afoitava o seu utilizador e punha em respeito os salteadores que também abundavam por aquelas calendas. Corria o ano de mil novecentos e dezanove e já por ali andavas havia cerca de três anos, quando resolveste talvez por melhores condições de trabalho mudares-te lá para baixo para as minas de Alcanadas também no concelho de Porto de Mós mas agora na povoação de Brancas. Tomava conta dos arrumos e outros afazeres do bairro onde todos os mineiros moravam, uma tal Maria Rosa que tinha uma filha de nome Isaura, foi amor à primeira vista! Mas para chegar à Isaura fizeste-te primeiro amigo da Maria Rosa. Então logo no primeiroAgosto que por lá passou era vê-lo: ó tia Rosa havemos de ir todos, às festas da Batalha; eu pago a carroça, mas leve a Isaura! E de vez em quando ia-a lembrando. A Maria Rosa ia-lhe respondendo, vou pensar nisso ó Álvaro, vou pensar nisso! Corria por aquelas bandas, naquele tempo e com grande alarido, um caso que, os mais cépticos diziam ser um fenómeno da natureza, outros ao contrário daqueles que, era de cariz divino. O caso passava-se lá para cima para o planalto da Cova da Iria, e corria de boca em boca, tão depressa corria que passara já para lá das fronteiras mais rápido que o vento. Uma senhora etérea e divina aparecera a três crianças, envolta em manto diáfano e suspensa no ar. Era este o falatório! Portugal era o centro das atenções. Viera gente de todos os lados, de fora e de dentro, vieram crentes e descrentes, vieram fanáticos fundamentalistas e hereges, mas tinham todos em comum, a curiosidade com que demandavam o local. Era como que, não poderem furtar-se ao chamamento daquela força mítica que os puxava serra acima, como um magnete. Os mais pobres como sempre, eram os que acorriam em maior número. Os coitados vivem há milhões de anos, suspensos do milagre da quitação. E interrogavam-se? Será que Cristo voltou á terra, envolvido com o manto de sua mãe pensavam eles? Não foi Ele que, deixou antes de o matarem, a sentença de que, voltaria ao reino dos vivos. És o filho de Deus! Mas olha eu se fosse teu pai! Nunca mais te deixaria vir ao reino dos mortais, viste o que te fizeram quando cá andaste há dois mil anos! Só que agora eles estão mais maus que então! Não respeitam nada nem ninguém. Será que, na última ceia e para espalhar a boa nova por toda a humanidade, escolheste os doze apóstolos porque será que um deles te traiu? Será que, na multiplicação e distribuição do pão e do vinho da última ceia não tenhas dado menos quantidade de pão e vinho a Judas? E que por isso ele te tenha traído, entregando-te nas mãos dos teus carrascos. Não é por este motivo que, a vil espécie humana guerreia há milhões de anos! Tentando sempre arrebanhar para si todos os bens materiais, pisando assim os mais fracos. Com o conversame, em grande elevação um dia sem se saber como; toda a mina como que uma força impulsionadora, explodiu! Assim como nas entranhas da terra, o mesmo aconteceu na mente daquela gente, homens e mulheres,



e todos há uma resolveram ir ver o local onde tudo acontecia! Onde a tal senhora aparecera. E um dia lá partiram todos por ali acima. Sim! Porque o local para se lá chegar era sempre a subir a partir das Brancas. Era como se começasse ali a primeira peregrinação, o primeiro calvário, a Fátima assim se chamava o povoado. Subindo, subindo sempre serra acima, chegaram entretanto a um ponto onde o ar vivificador os convidou a parar. Pararam e retemperaram forças comendo parte do farnel que levavam. A paisagem dali era soberba, arrebatadora mesmo. O local era conhecido por Reguengo; retemperados, continuaram serra acima, como que atraídos por um íman gigante. A partir, de certa altura, outras pessoas vindas de outros locais se juntavam confluindo todas para o mesmo local, Três horas depois chegaram a um planalto onde centenas de pessoas juntas já aguardavam não se sabia bem o quê. O chão pisado demonstrava bem o movimento de pessoas que por ali reinava desde há dois anos atrás. Que procurariam elas? Claro que aquilo que procuravam, pela maneira como os seus olhos esbugalhados e incrédulos pesquisavam o horizonte e toda a abóbada celeste, só podia ser uma coisa O MILAGRE! Estas cenas, se iriam repetir pelos anos vindouros, e a chama ir-se-ia sempre manter acesa porque, a fé dos pobres e infelizes a isso se dispunham, desde que povoam este planeta, sempre sentiram necessidade de adorar algo divino, humano, espiritual ou material, para se sentirem seguros. Já no tempo de César, lhe gritavam? Escraviza-nos oh César, faz o que quiseres de nós, mas dá-nos o pão e nós te seguiremos até à morte para te glorificar. É pois, o pão e a felicidade terrena que, o ser humano, sempre procurou afanosamente, desde que Cristo veio à terra. Não foi Ele que fez publicamente a multiplicação dos pães!?????Depois daquela peregrinação romaria, ao local da aparição, ouve uma grande aproximação do Álvaro à Isaura. Não durou muito tempo que, entre promessas e mimos eles resolvessem juntar os trapinhos como então se dizia. Na realidade os casamentos assumiam-se assim, e pura e simplesmente era; tu trazes a tua toalha e eu levo a minha. Numa coisa a mulher era intransigente! O casamento teria que ser sempre feito pela igreja. No dia aprazado fazia-se uma grande festança após o cerimonial religioso e já estavam casados dum pobre tinham surgido dois mas que é a vida sem o condimento dos problemas que a acompanham. Eram todavia ricos de virtudes, não como aqueles pobres de espírito que carregados de bens materiais se deixam possuir por eles. Desabafava muitas vezes com amigos, que gostaria de ter só filhos barões, para um dia quando fosse velho ter a sua ajuda! As baronas seriam levadas por quem delas se apaixonasse, e bem depressa o esqueceriam. A Isaura ia engordando na proporção inversa ao tempo que faltava para o término daquilo que dentro dela ia gerando. O Álvaro andava apreensivo! E sem dizer nada a ninguém, a ansiedade ia aos poucos tomando conta do seu tino. Às vezes em pensamentos via-se a esfregar as mãos de contente. E pensava? Deus queira que seja barão o que a Isaura gera no seu seio. Rapidamente, pensava para consigo não fosse aquilo ser um sacrilégio. Que seja pois feita a Sua vontade e que a sua vontade seja aquilo que mais desejo. Deixava a imaginação vogar para alem do etéreo, e regressava a si mesmo feliz. Havia de ser barão! E adormecia. O tempo que fora concedido a Isaura, para gerar no seu seio o filho, se esgotara rapidamente. E como o determina a natureza, há hora exacta, foi solicitada pelo nascituro ordem para vir a este mundo. O processo se iniciou de imediato e por fim, foi expulso como que uma golfada ensanguentada. Havia ainda uns preceitos a cumprir à laia de aviso para futuro. A violência que já existia em grande escala, para este novo habitante, começou ali mesmo.

Pois levou logo uma nalgada, e chorou e ao chorar, meteu para seus pulmões, ida do exterior, a primeira golfada de ar. A sua vida iria circunscrever-se a partir de agora, àquele ténue espaço de tempo que medeia, entre um hausto e o seguinte. É isto a vida, dum ser humano sempre com a lei da morte suspensa sobre si. A parteira terminara o seu trabalho! O Álvaro, que por perto andava, ainda a ouviu dizer para as pessoas presentes, é uma linda menina, ao que estas retorquiram lá isso é oxalá tenha saúde. Ficou na graça de Deus, mas no íntimo pensou! Devia de ser barão, lá isso devia. A Isaura ficou radiosa, era o começo de algo, que faltava para a plenitude do casal, os desígnios da natureza estavam cumpridos. A Maria Rosa assim se chamava a menina recém nascida, ia doravante consignar os esforços de ambos. E assim foi efectivamente! Estava-se no início de mil novecentos e vinte. Levou pois todo o ano a amamentação da criança, e durante este tempo os trabalhos dobraram, mas o que seria a vida sem desafios? Naqueles tempos era hábito para evitar concepções inesperadas regularem-se pelas luas, era o único preceito anticoncepcional mas como facilmente se depreende muito pouco fiável. Esse método no caso do Álvaro falhou redondamente! Ou seria intencional no fervor de querer um filho assim era e não pensava noutra coisa e passados que foram dois anos, a Isaura voltou a engravidar. Ele quando soube do evento, voltou aos tempos passados e pensava! Tem que ser um rapaz. E todos os preceitos já vividos com Maria Rosa voltaram a atormentá-lo todos os dias: Dobraram os trabalhos para ele e para ela. De vez em quando repetia para si mesmo; há-de ser um barão! E andou nesta ideia fixa todo o tempo que durou a gestação. A Maria Rosa, cheia de saúde já brincava, o Álvaro dava consigo e com muita frequência, a fazer contas à vida e antevia-a, complicada e difícil. Um certo domingo foi passear serra acima e, sem contar, ou intuitivamente para lá se dirigira, deu consigo no miradouro onde, tempos antes estivera, e para ali ficou em contemplação tempos infindos. Naquela contemplação reparou que, lá para os lados do Oeste, e calculou entre cinco a seis léguas a distancia do local, uma grande construção se elevava acima da linha do horizonte. O Álvaro pensou e disse para com os seus botões? Tal construção pela envergadura, só pode ser uma fábrica, viam-se resquícios do que parecia ser já o início duma chaminé. E pensou, quase que a falar alto! Se for uma fábrica a quantos braços não irá ela dar trabalho?


  • A fábrica tal como o Álvaro a via no recuado ano de 1921 esse casario que em baixo se visiona, à epoca não existia. Esta fábrica está sediada em maceira,e é vista nesta perspectiva em Reguengo do Fetal, na estrada de Batalha para Fátima.
Depositou a partir daí, grande esperança, naquela visão que tivera da charneca com aquela enorme massa industrial que, ao longe se erguia para poente. Os zunzuns que pela zona corriam quase em murmúrios, passaram a falatório que varria toda a zona, era que estava a nascer uma fábrica de fazer cimento, e aquilo era já uma certeza. Uns alemães tinham vindo para Portugal e investiam a sua grande fortuna no fabrico de cimento. Isto acontecera aquando do fim da guerra, catorze dezoito. Passaram-se muitos meses, e latejava-lhe na cabeça a ideia da fábrica. Via-se a trabalhar nela, via-se sair daquele trabalho que mais parecia uma actividade de toupeira sempre escondido nas entranhas da terra. É por isso que sem atinar muito bem, periodicamente lá voltava acima como que em veneração. Era domingo, e sem dizer nada a ninguém lá estava ele subindo religiosamente a montanha até ao mesmo miradouro onde estivera tempos antes e donde se visionava muito bem a edificação que tanto o atraia. O horizonte enchia por completo os seus olhos. A fabrica que ao longe se erguia devia estar quase pronta o tamanho da chaminé assim o denunciava. Sem dizer nada a ninguém depositava ali a sua esperança, Se era de cimento, deviam precisar de um mineiro perfurador e quem soubesse manejar com perícia os explosivos e ele era-o. Assentou ali mesmo que havia de lá ir brevemente. Achava, no entanto, que já não se podia distrair muito. Desceu para o vale ao tombar do sol. Do seu íntimo, regurgitava uma satisfação e esperança muito forte, desse facto fez minha mãe sabedora. O tempo, galopou qual crina de cavalo ao vento e a Isaura deu à luz outra menina a que deram o nome de Rosa Soares. O Álvaro coitado quando à noite chegou a casa depois de mais um dia de labuta férrea na mina, cansado, antes de adormecer meditabundo pensava? Que sorte a minha meu Deus, por duas vezes desejei ter filho barão, e duas vezes me outorgaste baronas. Que hei-de fazer: dizei-me por favor, se disso eu for merecedor! Não devia merecer tal, pois o silêncio foi tumular. Ficou triste e entregue à sua sorte. Estávamos na transição do ano de mil novecentos e vinte e um para o de mil novecentos e vinte e dois. Jurou que não deixaria passar muito tempo até lá ir visitar a fábrica. Meses depois resolveu por a ideia em marcha, e um dia, quando á noite se deitava e antes de adormecer remoía, remoía e antes de adormecer decidiu? No dia seguinte iria falar com o capataz da mina. Estava certo que atenderia a sua pretensão, teria que fazer disso segredo seu, pois os tempos não estavam para brincadeiras. Apanhou-o bem disposto e de boa catadura.

Acercou-se dele afoito; Sr. Luís disse: preciso de ir à sede do concelho tratar de uns papéis, o homem anuiu com a cabeça, dizendo de seguida; Vai Álvaro mas deixa as galerias abastecidas para não faltar o carvão aos homens. E assim foi, no dia por ele aprazado, e ainda de madrugada meteu-se ao caminho, por força do aguilhão que o espicaçara toda a noite. Estava uma linda noite de Setembro. E o dia que se lhe seguiu não lhe ficou atrás, a terra; intumescia de vida. Como que uma esperança nova, era um bom augúrio! Subiu e desceu colinas, que sorrateiramente o encaminhavam para a charneca. Pairava no ar um doce odor a plantas silvestres e a erva cortada, era o milagre! A terra recendia a essências divinas. Desceu por colinas e vales, cruzou-se com agricultores que, bem cedo labutavam na terra, para recolher o fartume que depois do seu tempo a eles retornara em recolhansa dos frutos. Quando por eles se cruzava o Álvaro dizia: Deus vos salve oh gente e lá seguia. Andou, andou até chegar próximo da edificação que com tanto fulgor o atraía. Parou estarrecido! Nunca nos anos que sua vida já durava vira semelhante construção, havia muitos operários em movimento, e pensou? Como gostaria de fazer parte deles! Dirigiu-se afoito ao primeiro que por perto passou, dirigiu-lhe a palavra perguntando? Amigo como hei-de fazer para trabalhar aqui nesta fábrica. Recebeu como resposta, inscreve-te rapaz, já estão a receber inscrições para todas as profissões, e não te atrases muito pois a fábrica está quase a arrancar. Estava-se nos finais de mil novecentos e vinte e dois. Dirigiu-se ao escritório onde funcionava todo o quartel-general que, superintendia toda a montagem do complexo, e onde funcionava o embrião daquilo que seria a secção de pessoal. Ainda era um bocado afastado do perímetro fabril e quando lá chegou já lá estavam pretendentes ansiosos. Aguardou! E lentamente a sua vez chegou. Começaram por lhe perguntar o nome, o que sabia fazer, etc. Foi respondendo às perguntas, acrescentando sempre mais qualquer coisa que era mineiro e que sabia carregar fogo com destreza e que manusear cápsulas rastilhos e detonadores não tinha para ele segredos. Foram tomando notas e construíram uma espécie de formulário. Perguntaram-lhe ainda se gostaria de fazer parte do pessoal da ECL, seria assim que no futuro se iria designar a nova fábrica.O Alvaro,dali saiu com a cabeça repleta de planos que ia tecendo no emaranhado dos seus neurónios. Sentia-se alegre! E esta alegria resplandecia de seu rosto,e se transmitia aos outros que com ele se cruzavam dirigindo-lhe palavras aluzivas e plenas de esperança. E no caminho de regresso, nem deu pela passagem dos kilómetros. Foi neste estado de alma que, horas depois fez minha mãe sabedora da sua esperanças em melhores dias. Pagou vinho aos colegas da mina, e durante uns dias reinou como se o sonho já se tivesse tornado realidade. Voltou ràpidamente ao trabalho duro da mina. As bocas que já tinha ao seu cargo assim o exigiam. Assim o Alvaro, arreganhou as mangas e, com mais impeto executava as tarefas que na mina lhe estavam apensas.Tinha vinte e tres anos e por isso a juventude inundava-lhe a alma,dando-lhe força para arrancar das entranhas da terra mãe, o carvão que ela pròpria gerava.Um dia à noite, a Isaura segredou-lhe ao ouvido? Oh Álvaro a natureza este mês não veio, será que estou grávida outra vez? O Álvaro disse deixa lá mulher, se for da vontade de Deus pois que seja e para minha alegria. que seja barão. Constatou-se tempos depois, que a natureza seguia o seu curso e que a Isaura gerava dentro de si novo ser. Daí para a frente dava consigo a pensar? Deus queira que seja barão, Deus queira que seja barão. Um dia recebeu de um mensageiro uma nota emanada da Empreza de Cimentos de Leiria, tinha sido admitido como operário da mesma decorria já o ano de mil novecentos e vinte e três. Talvez? Que o primeiro cimento que foi fabricado em Portugal, tenha sido o Álvaro que estoirara as rochas que lhe deram origem, fazendo-as saltar das entranhas da terra.A Isaura mudara-se já de gravidês avançada lá para a charneca, arranjaram uma casita num lugarejo perto conhecido por Venda. O que a Isaura gerara durante nove meses no seu seio nasceu precisamente aí e daí é natural Mas não foi barão! E outra menina nascera, e deram-lhe o nome de Aldina,e depois dessa mais outra a que deram o nome de Virginia,e segui-se o curso da mãe natureza e outra menina nasceu a que deram o nome de Isaura, A esta segui-se uma outra menina a que deram o bonito nome de Esmeraldina. Esta sequência segue-se a um ritmo que mediava entre dois a dois anos e meio,ainda hoje eu que sou o oitavo filho,quando recordo o passado e quando pretendo saber o nome de algum deles se é mais velho do que eu vou acrescentando dois anos até chegar ao que pretendo se é mais novo diminuo dois anos utilisando o mesmo princípio seguido acima. Não falha.O dilema do Alvaro ia-se adensando. A Isaura de vez em quando ia-o advertindo,hó Álvaro fomos bafejados com seis raparigas não achas melhor ficarmos por aqui olha que se vier outra será de certeza bruxa . Não ias querer isso pois não? Naquele tempo, pensava-se que a sétima filha seria bruxa e que, em relação aos homens seria lobizómem. O Álvaro reconhecia-lhe uma certa razão mas não lhe dizia nada. Estava em luta a força da natureza, com o bom senso. Sei que ganhou a força da natureza que tudo arrasta e leva, tão só porque existo.

 






















Contrariando todas as normas do bom senso, a Isaura voltou a engravidar mais uma vez. A gestação tal como as anteriores, decorreu segundo os bons ditâmes da natureza, e assim quando ela o determinou a Isaura dá à luz mais um ser vivo só que desta vez o Álvaro foi enfim: bafejado com um filho barão. Dezoito anos depois de ter formulado esse desejo pela primeira vez. Estava pois aplacado esse desejo profundamente arreigado no seu íntimo. E o Álvaro comemorou o facto; em casa e na rua com os amigos pagava bebidas a toda a gente, e esta alegria durou longos tempos. Era pois nascido o sétimo filho, a que deram o nome de Domingos corria o ano de  mil novecentos e trinta e três.O que eu me indago pai é porque não te quedaste. Eram tempos muito difíceis e com sete filhos há mesa era obra. Porque te não quedaste nessa altura? Não era filho barão que ambicionavas? Mas não! Prosseguistes

e assim, advieram o oitavo, o nono, o décimo,e o décimo primeiro,Foi obra Álvaro.Sem que o soubesses,na aurora do tempo que se avizinhava uma grande tragédia estava prestes a eclodir e a segunda guerra mundial troou por toda a Europa. Aí estavam novamente os quatro cavaleiros do Apocalipse.Olha pai; é desse tempo, a primeira percepção que tenho da minha existência neste mundo, e ela não foi agradável,pois fui atingido pela praga que o terceiro cavaleiro espalhava pelo mundo a Fome. Deves de ter sofrido muito, Alvaro quando à mesa juntavas semelhante prol. Lembro-me, do frio que passava quando de pés descalços ia para a escola. Andàvamos sempre de ranho a pingar pelo nariz, mas não caia; pois logo o inspiràvamos para dentro das narinas, pingava, inspira e assim sucessivamente, era como se tivessemos uma constipação cronica.Se tens passado do setimo para o nono filho evitar-me-ias muitas humilhações e maleitas. O mundo, Alvaro! Roda desconchavado desde que os humanos o habitam. No entanto, tinham tudo ao seu alcanse para o harmonizarem. Uma premissa, era necessária, só uma !Alvaro. Saberem distinguir o bem do mal que dentro deles habita desde que nascem. Mas deixa lá Alvaro o teu oitavo filho no que toca à sua sobrevivência desenrascou-se bem. Na època pura e simplesmente cortou a direito. Sabes Alvaro! Eu acho; mas acho mesmo que, uma criança que passa fome, assiste-lhe o direito de roubar para suprir essa necessidade básica, e eu assim fiz, tentando sempre preservar-te da vergonha, o que eu mais gostava de roubar ao merceeiro era a alfarrova em farinha enchendo os bolsos. Sabes Alvaro,aquilo dava a sensação de barriga cheia,e ainda por cima, alimentava mesmo o homem, via; mas fazia que não via, pois eu enchia-os à descarada, a única coisa que eu tinha em conta é que naquele dia não havia carencias. Essa era a lógica,  e tanto mais o era, enquanto outros esbanjam aquilo que a ela lhe falta. Mas sabes mesmo assim, naqueles tempos tenebrosos, algumas alegrias me estariam reservadas. Quando na escola, e com oito anos fui escolhido para tamboreiro, não!  Não era uma prenda de anos, mas um tambor a sério! Tinha um jeito nato para a coisa e dava a cadência certa de marcha, t"rrum tumtum tum t"rrum, e assim sucessivamente. Quando o tenente pedia, quase solenemente: repicar...Marcha,eu respondia com o tambor deste jeito? T"rrum tumtumtumtumtumtum t"rrum, e assim sucessivamente. Para que isto acontecesse, nos momentos cruciais e que coincidiam com as cerimonias oficiais, onde membros do governo presentes se embebeciam com o sonho,de uma juventude altaneira e moldada segundo esquemas pré defenidos pelo estado. Como ia dizendo acima,para que isso fosse possivel, os garotos escolhidos para tamboreiros e corneteiros, tinham instrução extra escolar, no ginásio onde duas vezes por semana ensaiavam as afinações. A instrução fortemente do tipo militar, onde os conhecimentos adquiridos eram postos à prova na prática, onde uma vez por semana  um tenente de cavalaria oriundo do quatro de artilharia o fazia. Chegava ao largo da escola, numa charrete muito bonita e brilhante, com quatro rodas guarnecidas de borracha e puchada por dois lustrosos cavalos. O cabo, que a conduzia, ali ficava pacientemente enquanto durava a instrução. O Oficial era imponente! Impunha em simultâneo mêdo e uma forte admiração pelo porte que exibia. Naquele momento cerca de cento e cicoenta miudos dos oito aos quatorze anos corriam rápidos para a formatura devidamente fardados com a célebre farda da mocidade portuguesa, formavam em castelos comandados por um comandante de castelo, tal e qual como na tropa a sério. Eram os luzitos de Portugal em acção, Abrir...fileiras; alinhar, à direita, dizia o oficial,para ali ficávamos em sentido para que nos momentos de cerimonial as entidades oficiais pudessem passar revista, ao seu sonho, tornado realidade. Em frente marche, acto contínuo o tambor roncava, as cornetas tocavam e cento e cincoenta rapazes e  raparigas avançavam a marcar passo seguindo as ordens severas do oficial. Em simultânio cantavam. Lá vamos cantando e rindo, Levados levados sim, Pela voz de som tremendo, Das tubas clamor sem fim. Lá vamos que o sonho é lindo, Rasgões,clareiras abrindo, Alva da luz imortal ! Roxas nevoas despedaça Doira o céu de Portugal.Querer! Querer e lá vamos Tronco em flor estende os ramos À Mocidade que passa. Ao tempo era este o hino da mocidade portuguesa cantei-o muitas vezes por fazer parte daquele corpo da mocidade. Parece que, há territórios que foram de Portugal, onde este hino é cantado nas escolas, por apelar ao amor pela terra onde se nasceu. Aquela estrofe "tronco em flor estende o ramo à mocidade que passa" É o máximo!  Ainda hoje me comove pela força inerior em que remexe. Ainda me intrigo; "pois não sei se aquele à mocidade que passa" se se referia à juventude que foge de nós à medida que o tempo passa. Ou à mocidade portuguesa como corpo militarizado, que passava ali frente aos nossos olhos. Em nenhum outro local de Portugal a mocidade se aperfeiçoou tanto. O sonho deles se tornara realidade.O maior gozo era quando o tenente dizia? Esquerda virar! Sim porque o local de instrução, sendo rectangular, quase com a ária de um campo de futebol. A marcha se processava contrária ao movimento dos ponteiros do relógio. O meu gozo, advinha precisamente, de no exacto momento em que virava à esquerda, olhava pelo canto do olho e via, todas aquelas pernas ritmadas à cadência do meu tambor, sentia-me orgulhoso. Cada um batia com o pé direito no chão com o mesmo ímpeto da marcha que cantava, eles se esganiçavam cada um com mais força que o outro, tentando interiorizar para si todo o fervor patriótico que a mesma encerrava, O ambiente era fortemente propício. As veias, e os tendões do pescoço, sobressaíam com o mesmo ímpeto que, lhes incendiava a alma. Esse impeto, tornava-se mais magnânimo quando a exibição era pública. Isso acontecia quando, na época de verão em S.Martinho do Porto, os miudos iam à missa em formatura através da povoação até à igreja lá bem no cimo do morro. Os veraneantes todos batiam palmas à sua passagem, mas que vaidade que sentia, quando ouvia o rufar do tambor ribombar por entre os predios, trum tum tum tum trum. Todos os garotos que frequentavam a escola naquele tempo, tinham vinte dias de férias na praia. Era uma època de fartume.Muito bonita era aquela concha, ali bem perto de Caldas da Rainha. E então com bastante antecedência, era ver os putos confeccionando as suas ventoinhas a partir dum bocado de madeira maciça, só para que, no dia aprazado, pudessem desfrutar do prazer de a ver desandar ao longo do percurso de comboio, com cerca de quarenta kilómetros. Como vez pai; apesar da dificuldade dos tempos, essa é a recordação que deles tenho. E é uma recordação bem bonita! Repara só!  Os tempos eram tão difíceis que, antes de irmos para a colónia balnear infezados e pardaçentos, èramos todos pesados, e não havia casos de há chegada na repesagem, surgir algum miudo que não tivesse engordado cinco seis kg. Luzidios como leitõezinhos acabados de nascer. Era obra hein! Este adicional de peso corporal, chegados que eramos, começava de imediato a ser-lhe subtraído aos poucos, não só pela fome que subssistia, mas tambem pela enorme quantidade de ténias que, dentro de nós e do pouco que comiamos se alimentavam. Eram enormes pai! e, quando pelos terrenos baldios defecávamos, era vê-las; metade dentro do intestino, metade fora contorciam-se, tinhamos que as puxar para fora com os dedos... uma, duas, várias. Quando expostas ao tempo, rápidamente morriam. Tinham cerca de trinta centímetros de comprimento, por sete oito milimetros de espessura. Muitas vezes, o próprio intestino prolapssava, nós próprios, o metiamos tambem com os dedos para dentro da cavidade abdominal. Que saudades que eu tenha do grão que lá comia e o arroz pai ! Arroz doce vê là tu! Como vêz para nos desenrascarmos, valia tudo. No dia de São combóio, mal o apito soando rouco e ainda longe, mas logo que nos fosse audível, de imediato acorriamos por dois motivos; e qual deles o mais importante. Primeiro: os vagões traziam carvão, o carvão depois de esgravatado durante horas, conseguiamos encher um, ou com sorte, os dois bolsos de pequenas particulas de cobre puro que, de seguida, eram transformados no sucateiro local em moedas. Um cruzado dizia ele, iam logo para a compra de alfarroba. O outro motivo e talvez ainda, mais importante que este, era a própria presensa do combóio. O que, nos fascinava; não era a composição em si, mas a locomotiva em si mesma, uma Henshell, das grandes, enorme, pareciamos ao pé dela uns simples micróbios. Era uma adoração quàse divina! O monstro, era das coisas mais bonitas que eu via naquele tempo, enorme, toda preta da cor do azeviche, com seus tubos e cintas que a envolviam, da cor do latão e do cobre, mas tudo a brilhar do polimento e do carinho com que eram tratadas. A máquina para ali andava, para trás, e para a frente, sempre a resfolegar em movimento lento, devagarinho mesmo; como vaidosa de se sentir tão adorada pelas crianças. As manobras na linha, para tràs e para a frente,eram por nós acompanhadas mesmo ao lado dela, nos seus movimentos, quase a tocávamos, como se fora uma deusa, mas; quando o maquinista nos dirigia a palavra, era o extase total. Um dia amandou para nós um boné de maquinista,todo preto fui eu que o agarrei andei com ele até se desfazer de coçado. O que mais nos impressionava, eram as bielas que transmitiam o movimento às rodas,sempre naquele movimento horizontal e sempre a bufar, fu...fufu...fu e o monstro, se movia sereno como uma criança que dormisse, era lindo e ainda hoje, adoro locomotivas a vapor. Aquela tinha no seu conjunto,talvez uns trinta metros. A humanidade lhes deve muito. E a grande revolução industrial do seculo desasseis sem ele, não seria possível. Em Portugal existe um lindo património ferroviario


A minha infancia está amalgamada com esta máquina

 

 


Como vêz Alvaro estas são as recordações que me ficaram daquele tempo, e que eu considero boas,outras não foram assim tão boas como quando, infrigindo as regras estabelecidas eras chamado à direcção. Mas que podia eu fazer? Quando ameixas, cerejas,damascos, alperces etc sorriam para mim para lá da vedação. O meu estômago agradecia! Mas tu Álvaro,ao seres chamado à direcção,de lá vinhas enfurecido comigo; e quando tu lhes dizias que em casa me ias dar uma teoria logo te corrigiam não, não sr  Álvaro deia-lhe umas boas palmadas; não sabiam eles que na tua linguagem uma teoria já pressupunha umas boas correadas. Coitado do Álvaro não merecia!

Um dia, eu oitavo filho e o sétimo resolvemos imitar os lenhadores na sua faina nos pinhais. Agarramos em dois machados eu, como era o mais novo pois tinha dez anos e tal fiquei com o mais pequeno isto é, o de cabo mais pequeno. Pusemos o tronco no chão e começámos. Ele desferiu o primeiro golpe e sacou uma grande lasca de madeira. A tragédia estava a escassos segundos de acontecer. E vou eu, desfiro também a minha machadada, com o mesmo ímpeto, mas não com a mesma força, e zás ele, e zás eu, mas sem ter a percepção eu, estava em grande desvantagem, pois para dar a machadada tinha que me baixar muito, ficando por breves centésimos de segunda, com a cabeça mesmo posicionada na tragectória do machado dele e a tragédia aconteceu. Senti sómente um zim prolongado, tipo zunido que, suspendeu a minha vida por tempo que me pareceu uma eternidade de imediato o sangue quente inundou-me em borbotões. O machado me tinha atingido bem no cimo da cabeça abrindo-a como se fosse uma melancia, cambaleei e fui ao chão, com grande dificuldade levantei-me e comecei a andar, as pessoas que me viam gritavam e em pânico aterrorizadas desapareciam assim como o teu sétimo filho que, desapareceu sem deixar rastos só o encontraram muitas horas depois em cima de uma oliveira, transido de frio e medo. Fui transportado de bicicleta para o hospital, e operado depois de desfalecer; horas depois escapara sem saber à morte! Mas sabes pai! Se não tenho escapado, nunca teria posto os pés do lado de lá e hoje não teria que carregar com o estigma do Império colonial português às costas. Por esta altura, começaram a processar-se em mim violentas alterações hormonais e elas, foram despoletadas por numa noite, ter apalpado as mamas à Candida, aquela sensação sedosa dos seios dela na minha mão, não me iria abandonar tão depressa. Naquele tempo, não havia luz em lado nenhum e breu caía assim que a noite se punha,apenas aqui e ali, se via o tremulinar da luz dos gasómetros e das candeias, e quem queria água tinha que ir ao fontanário publico. Foi numa altura dessas que apalpei as mamas à Candida e ela deixou! A partir daqui a ideia era só aflorar ao cérebro e lá estava eu masturbar-me e isto acontecia uma duas vezes por dia. Desculpa-me pai. Já alguma vez chegaste a chama dum fósforo a gasolina? Era mais ou menos isso que acontecia. Deus quando pôs o ser humano na terra deixou duas sentenças a modos que maldição sobre ele. Conseguirás o teu sustento com o suor do teu rosto! E espalhai-vos por toda a terra e multiplicai-vos! Por outra palavras em moldes mais modernos. É esta pois a pirâmide das necessidades básicas do ser humano. E caso curioso pai, são só duas. Sobrevivência e procriação. E eu sobrevivia e bem, e procriar já dava fortes sinais.▲

Ao Álvaro dado a rudeza do seu trabalho, alguns privilégios lhe estavam atribuídos. Dos que me lembro; ao Domingo, e só ao domingo por ser um dia especial depois de uma semana de seis dias de trabalho duro ao tempo. Minha mãe ia ao talho lá do sítio e trazia-lhe fersura e bofes. E ele ao menos naquele dia se regalava. Vários olhos o miravam gulosos. Ele não resistia à tortura; e de vez em quando, lá vinha uma garfadita para cada um, o naco de bofe desaparecia de imediato. Aquela merda parecia borracha e quando minha mãe o cosia ao lume nunca ia ao fundo, era como a cortiça. A seguir metia a cabaça á boca e consolava-se com um pouco de vinho.

Depois de se consolar, passava-nos a cabaça para nós que, tal como outrora mamara nas mamas de minha mãe, o único leite que bebera até à idade adulta.. Por isso quando metia a cabaça á boca, chuchava como o fizera em menino.Ele fazia um furinho muito pequenino junto ao bocal que permitia agente consolar-se com uma ínfima quantidade de líquido; para falar português o líquido era vinho.

Outro privilégio

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publicado por A Conspiração às 16:18
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